O Mundo Que eu Desejo Pro Miguel – Ou O Contrário?

Desde que engravidei eu ouço muito as frases ‘que mundo maluco é esse que estamos deixando para o nosso filho?’ ou ainda ‘como a gente tem coragem de colocar filho no mundo do jeito que tá?’. Confesso que sempre fiquei meio irritada com o tom da pergunta, mas eu não sabia direito o porquê. Mas agora, em tempos de eleição, afrontamento gratuito, ódio arraigado e muita falta de educação eu entendi: não me preocupo com o mundo onde o Miguel vai viver. Me preocupa ‘o Miguel’ que eu quero deixar pro mundo.

Sinceramente, eu não dou a mínima se ele vai gostar de chupeta ou não. Se vai gostar de mamadeira, se vai desfraldar rápido, se vai andar antes de fazer um ano, se vai comer orgânicos, se vai aprender a ler antes do tempo, se vai ser bom em matemática e se vai passar de primeira no vestibular. Juro, essa não é a minha preocupação – pelo menos não agora (e me permito, sempre, mudar de idéia.).

Hoje em dia o que me preocupa de verdade é se eu vou conseguir (ajudar a) formar um ser humano generoso, honesto, que se importe com o outro de verdade, que consiga olhar além do seu umbigo e que saiba que sim, que o mundo é duro pra caralho, mas é que o que tem pra hoje. E, certamente, o mundo é muito pior pra outras pessoas, Miguel já nasce no lucro. Não quero filho coitado, filho medroso, filho cuzão. Engole o mimimi, levanta e anda.

Quero (MUITO!) criar o Miguel pra ser um cara legal, pra ser forte, guerreiro, pra lutar pelo que acredita, pra não se deixar intimidar, pra não ter vergonha de ter opinião, pra pensar sozinho, pra fazer a diferença. Eu venho de uma família só de mulheres, todas muito fortes, muito donas de si, por quem eu tenho uma admiração louca! Tenho muito orgulho de ter sido criada pra ser forte, independente, dura na queda, dona do meu caminho. O que de mais importante eu aprendi, até hoje, foi a cair e levantar, de passar perrengue sem ficar com pena de mim, de saber olhar pro lado, de agradecer o que é bom, de querer mudar o que é ruim, de ter coragem de ser eu mesma. De acreditar, de ser honesta, de não passar por cima dos outros. No fim das contas, é isso que importa.

O meu sonho dourado era que meu filho pudesse estudar em uma escola onde ele tivesse também amigos negros – ou vai dizer que é fácil encontrar crianças negras em escola particular em SP? Que ele convivesse com gente mais rica, gente mais pobre, crianças que vieram de outros lugares, outras religiões… Tenho pânico e pavor de pensar que, muito possivelmente, eu não vou conseguir. Que vou ter que correr pelas beiradas e ensinar pra ele, de outro jeito, que o mundo não é só feito de ‘gente linda, elegante e sincera’, que tem sim, muito ‘fio desencapado por aí’ e tudo bem. Não estamos aqui pra julgar ninguém, estamos na vida é pra aprender, melhorar, ajudar, ser mais humanos e diversidade é o que tem de mais lindo no mundo.

Não me importa escola bilingue, escola com comida orgânica, waldorf, construtivista, sei lá o quê mais… claro que também vou pensar nisso em algum momento, mas, pra mim, é secundário. Eu gosto e acredito em gente, escolhi trabalhar com gente, eu vivo num mundo onde qualquer coisa que valha a pena é por causa de gente. O resto é resto, vem depois, vem por consequência. Mas, quem não gosta de gente, sei não… desconfio..

Então, sim, quero muito que o Miguel viva em um mundo melhor do que eu tenho vivido, com menos ódio, principalmente. Mas, mais que isso: espero deixar no mundo um Miguelito educado, generoso, tolerante, sem preconceitos, que ame muito e que se importe com o que importa: com gente.

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