Tatuador é o Novo Rockstar?

Essa idéia de tatuador se comportando como rockstar é a moda mais irritante do momento: você liga pra agendar um horário, mentira, você não liga porque você j-a-m-a-i-s terá acesso ao telefone do tatuador. No máximo você fala com a secretária, que tá sempre entediada/ocupada e nunca tem informação nenhuma, não sabe média de preço, não sabe se tem horário, não sabe quando você pode ir mostrar uma referência, não sabe nem se o tatuador existe, de fato.

Com muito sangue, suor e lágrima, você descola um endereço de email. Pensa, reflete, anexa a sua referência de desenho, capricha, envia. Em um minuto chega uma resposta automática ‘tenho mais de 1500 emails não lidos e é provável que eu nem vá ler o seu email’. GENTE, OI?!?! Caso verídico.

Tem também os que não respondem email de novos clientes e você precisa de um ‘cliente antigo’ pra te indicar, te dar um aval e dizer que você é digno de receber uma resposta. Caso verídico 2.

Aí você finalmente consegue descolar um horário nessa agenda atribuladíssima, de artista internacional, milionário, disputado por todos – só pode –  e vai, finalmente levar a sua referência pra ele dar uma olhada.

O digníssimo matém a pose blasé, exprime completa indiferença… parece que você levou um coraçãozinho pra um tatuador de dragão. Você, constrangido, com vergonha, já em dúvida se é isso mesmo que você queria tatuar, resolve agendar um horário pra fazer a tatuagem:

– E quando tem horário? Mês que vem, de repente?

– Olha, só no ano que vem, já fechamos a agenda desse ano.

– Mas estamos em outubro, crise, coisa e tal… né possível.

– Só em abril.

Você engole seco porque falta pouco ele falar ‘e se reclamar mais é só em 2017’. O cliente então sai de lá agradecido, glória a Deus, obrigada senhor, graça alcançada, milagre concedido, eu vou ter a honra de pagar caro, esperar 6 meses e tatuar com um super artista que falta pouco cuspir na minha testa.

Oi? Tá errado, tá feio, tá escroto.

Sou do tempo que tatuador era um prestador de serviço. Um prestador de serviço artista? Sim, mas ainda assim um prestador de serviço. Vão me desculpar, mas eu ainda acredito na gentileza, em ser simpático e acredito ainda mais que quando você paga uma grana por uma tatuagem você paga também por outros serviços: por um desenho exclusivo – sim, o tatuador precisa desenhar pra você, uai! E paga também pela ‘direção de arte’. Acho o cúmulo essa pose blasé, esse desinteresse pela tatuagem do cliente. Tatuagem é pra sempre, não dá pra ter esse clima… eu vendo serviço também e o meu, que não é uma coisa na pele, eterna, eu já não trato com esse descaso. Aliás, muito pelo contrário.

Aparentemente, o mercado de tatuagem vai muito bem, obrigada, e tratar o cliente feito um lixo faz parte. É a parte cool do negócio, é o novo preto.

Não, obrigada, pra mim não rola. E nem adianta vir com a máxima ‘mas o resultado ficou maravilhoso’, dane-se, se eu vou pagar caro (e é justo que seja caro, é pra sempre, é arte, é na minha pele) tem que me tratar bem também. Fazer um trabalho incrível é ótimo, excelente, mas tratar bem as pessoas é o mínimo, é o que vem antes.

[fiz o texto com as palavras no masculino porque a língua portuguesa é machista e considera o masculino como gênero que abrange os dois sexos. mas sim, estou falando de tatudores e tatuadoras].

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