Maternidade & Carreira

Escrevo esse post sem ter a menor idéia de como tornar mais fácil essa equação maternidade & carreira, a minha idéia é, apenas, trazer aqui pro blog histórias reais que inspirem e motivem outras mães. Gosto de pensar que dá pra ser mãe e ter uma carreira bem sucedida, que dá pra ser mãe e trabalhar de casa, que dá pra ser executiva, voltar a estudar, parar de trabalhar… dá pra inventar uma nova carreira, uma nova profissão, um outro mercado… eu sou otimista, eu acho que tudo dá. Mas nós não vivemos no ‘show da xuxa’, ser otimista não basta. Por outro lado, eu também não tenho a resposta pra tudo, eu não sei como faz, se todo mundo faz, eu tenho perguntas, angustias, eu sou igual a vocês. Pensando assim, eu resolvi dividir aqui no blog o que me move, o que me inspira, o que me faz andar pra frente, o que me faz acreditar que esse esforço (gigantesco) para manter todos os pratinhos no ar vale a pena. São as outras mães e as suas histórias que me empurram pra frente no final do dia ou quando tudo desmorona.

Essa coluna vai contar com posts mensais e eu vou adorar receber os feedbacks e sugestões de outras mães legais e bem sucedidas (lembrando que esse é um conceito amplo e individual) para serem entrevistadas aqui pro blog. Que as nossas filhas não precisem de tanta ginástica para fazer o óbvio: o que bem quiserem.

A primeira entrevista foi feita com uma amiga super querida, a Déia. Ela é de belém, mora em são paulo, trabalha com cinema e se separou do pai do Jonas quando ele ainda era pequeno. Toda vez que a minha vida começa a desabar eu penso na Déia. Eu jamaaaaais conseguiria ter feito tanto com tanta adversidade como ela fez e mais! ela fez bem pra caramba. Ela é super organizada, o Jonas é menino incrível, tenho muito orgulho de ter uma amiga tão especial. Com vocês, nossa primeira entrevista! 🙂

[PS: a Déia é também a personal organizer que eu indico para as minhas clientes! Ela é sensacional!]

maternidade e carreira deia 2

1-  Quando foi pra você pensar na gravidez? Foi planejado ou aconteceu e você resolveu assumir? Nesse momento você pensou no trabalho, na carreira?
Até os  30 anos eu tinha um discurso de  independente, aventureira, viajante, que nunca iria ter vínculos, nem família, nem cachorro, nem gatos e muito menos filhos…Mas depois que entrei na casa dos 30 foi um processo hormonal, fiquei doida pra procriar, mas não tinha um relacionamento estável, até aparecer o Paulo. Nos conhecemos no “Desmundo” [filme que ela estava fazendo] eu 10 anos mais velha que ele, todos me achavam louca.. Mas me apaixonei e ele também, não programamos nada mas não tínhamos muito cuidado e daí veio o Jonas! Tínhamos apenas 3 meses de relacionamento quando engravidei,  daí eu propus opções para ele: Não querer ser pai nem namorado, querer ser pai e não ser namorado ou ser pai e namorado, ele optou pela última…Mas era claro para mim que, caso ele não quisesse, eu iria ter meu filho. Ficamos 4 anos e meio juntos.
Como eu estava com os hormônios gritando pela maternidade, eu só pensei em trabalhar muito durante a gravidez, para conseguir fazer um saldo, após o bebê nascer. O Paulo era estagiário do cinema e era eu quem segurava a onda da grana. Tive que ficar parada até o quinto mês por uma complicação, do sexto mês até parir eu trabalhei muito!
2- Você ja era produtora de arte quando engravidou? E como fez para conciliar gravidez e trabalho?

Quando engravidei eu era produtora de objetos, que é a função do cinema mais trabalhosa [sou testemunha, é mesmo!]: pesquisar, produzir, desproduzir, milhares, centenas de objetos, a cada filme!

Na gravidez, trabalhei do quinto ao sexto mês, como eu contei na pergunta anterior. Depois que o Jonas nasceu, eu tive que voltar logo a trabalhar…Isso me chateia um pouco, porque mesmo tirando leite, tentando cumprir os horários da amamentação, o meu leite foi escasseando dia após dia, e ele mamou até o terceiro mês…Me sinto um pouco culpada, mas não tinha jeito, ou eu ficava em casa ou não tínhamos dinheiro para comer…
3- Você conseguiu fazer licença maternidade? Porque em cinema não tem isso né? Se não trabalha, não recebe… como você se organizou para ter um bebê pequeno, precisando de você e pagar as contas?
No primeiro ano de vida do Jonas, o pai cuidou dele algumas vezes e teve também o importante auxílio da babá, que foram muitas…, eu ligava para saber se estava tudo bem, se ele tinha comido, feito cocô, xixi, tomado banho..na verdade, faço isso até hoje! hahahaha Só que agora direto para ele (que fica bravo!). E rezava para a babá ser uma boa pessoa e não maltratar meu filho.
Não foi fácil, mas nas horas que não tinha com quem ficar eu levava o Jonas comigo! Montagem de cenário, por exemplo, levava lençol, manta, travesseirinho, montava um praticável, limpava, e fazia um bercinho para ele. Se tinha cheiro de tinta forte, colocava ele na porta do estúdio, senão, ficava ali do meu ladinho, sob os meus olhos de leoa!
4- Eu sei que você se separou quando o Jonas ainda era pequeno, né? E aí como você fazia para trabalhar? 
Eu trabalhava com a ajuda da babá, da avó paterna, que foi a pessoa mais importante desse processo, ela me ajudou muito, muito mesmo. Nos filmes fora de São Paulo eu levava ele, matriculava ele numa escola parecida com a escola mãe de sp, alugava uma casa, com o dinheiro negociado antes com a produtora. O dinheiro que a produtora iria pagar para o hotel, me repassava e eu alugava a casa. A vida do Jonas não sofria tantas alterações, tinha casa, escola, novos amigos e histórias para contar quando voltava para casa…Quando ninguém dos amiguinhos da sala dele sabiam o que era porco, galinha, fazenda, ele explicava e mostrava fotos! Era maravilhoso..
4- Você cogitou parar e ser mãe full time? 
Não, nunca. Eu amo o que faço e amo meu filho também, mas prefiro a loucura da correria do que o tédio de ficar em casa, arrumar, cozinhar, passar, lavar. Prefiro fazer tudo isso com a correria do trabalho. E o Jonas iria ter uma mãe mala!
5- Alguém te sustentava ou o seu trabalho era sua fonte de renda principal?
Quem me dera! Ah como eu queria! hahahahaha O meu trabalho sempre foi a minha renda principal. Já passei por vários apertos, mas tenho a metodologia de sempre ter um fundo de reserva, trabalho, ganho, pago as contas e guardo, sempre. Nas horas em que o mercado fica ruim, eu consigo pagar as minhas contas básicas. Agora mesmo, no segundo semestre de 2015, com a crise, fiquei parada 5 meses! Corto todos os extras, empregada, cinema, restaurante, roupas , etc..Pago as contas e não entro no vermelho.
6- Com o tempo tudo foi melhorando, né? Mas eu sei que vc optou por ficar anos e anos sem pegar filmes fora de SP, me conta mais sobre outras concessões que você fez para criar o Jonas do jeito que você acredita ser o melhor? 
Sim, o tempo vai passando, eles crescem, e vai ficando mais tranquilo. Na verdade, até ano passado recusei filmes fora de sp para não deixar o Jonas sozinho, por isso também fiquei sem trabalho no ano passado. Esse ano ele vai fazer 14 anos, acho que tudo bem agora ele ficar sozinho, com alguém responsável por ele, já sabe se virar bem. Há dois anos atrás, fiz um longa no Rio de Janeiro por 5 meses e o Jonas ficou aqui em casa com o pai. Foi difícil, o pai também trabalha com cinema, tinha de viajar, trabalhar e eu fiquei que nem louca no Rio. No final, catei o menino e levei para ficar comigo e foi ótimo!
Teve um longa que eu fiz que tinha de ir e vir todos os dias de Paulínia, era 1 hora e meia todos os dias…Negociei com o motorista que trabalha comigo há 8 anos, o santo Renato, parceiro da vida, e ele topou! Era o jeito de fazer o trabalho e estar presente na hora da lição de casa à noite. O Jonas até hoje chega em casa e me liga para dizer que chegou, se vai ou não me esperar para jantar.
Eu digo que o Jonas foi criado via telefone, ligava todas as horas pra saber se tinha escovado o dente, tomado banho, se estava cansado, o que ele queria comer (antes de chegar em casa eu passava para comprar o que ele gostava…). Cansei de pegar ele em casa na hora da empregada ir embora, de banho tomado, jantado e de pijama. Ele dormia na van estacionada na frente da locação que eu estava filmando… Organizava o carro, abria espaço no banco traseiro, lençol, travesseirinho, e ele dormia gostoso, feliz…
A minha condição era avisar a todos que “sou mãe, tenho filho me esperando em casa, reunião tarde nem pensar, não atendo telefone depois das 22h, no sábado ele vai estar comigo produzindo, vai ter uma criança andando com a gente. Se for ruim posso mandar a assistente, tudo bem?”. Era assim, e como ele sempre foi uma criança bacana, ele era bem vindo.
7- Dá um conselho para quem quer engravidar mas fica com medo de perder a carreira ou para quem acabou de ter um bebê está sem saber como conciliar tudo?!
A minha vida mudou depois que tive o Jonas e, garanto, sou uma pessoa melhor! Mas para as aspirantes do cinema, eu digo: os rebentos junto da gente sempre! Não tem babá, nem amor de babá, nem avó, que seja melhor que o amor da mãe. Está ruim, está complicado, difícil, mas ele está comigo, junto de mim. Eu tive amigos motoristas importantes, que me ajudaram muito, mas no final era eu quem estava lá para dar o leite, ninar, dar colo e beijo. Isso não tem chavão nenhum de cartão de crédito que mereça, mas realmente não tem preço.
E organização é a palavra chave, na correria, estar organizado, ajuda muito, é importante. A avó, a amiga, o motora, tem pegar uma muda de roupa para o menino, se estiver organizado, a criatura entra na sua casa e acha tudo direitinho sem sofrimento. Me salvou muitas vezes.
maternidade e carreira deia 3
Obrigada Déia, você é demais. <3

 

Comente no facebook

comentários