Sobre Desistir e Repensar

Tem uma música que é super importante na minha vida e que sempre me arrepia, é a ‘olhos nos olhos’ [com a maria bethânia, melhor versão]. Tá certo, é uma música linda por si só e nem precisava de mais nada, mas ela é também a música que me lembra de uma fase super importante da vida: quando eu saí de cinema. ‘Olhos nos olhos’ é a música que deu origem ao filme ‘Abismo Prateado’, que é o último trabalho feliz que eu fiz como assistente de arte. Depois dali foi ladeira abaixo, eu odiava tudo-tudo-tudo e tudo-tudo-tudo me fazia super mal.

Essa foi uma das fases mais difíceis da minha vida porque eu tinha ‘o trabalho dos sonhos’. Eu ganhava bem, eu já tava num lugar relativamente privilegiado, eu era boa e eu tinha muita gente me chamando pra trabalhar o tempo inteiro, eu pagava as minhas contas, era dona do meu dinheiro. Mas eu mudei pra SP e o que era incrível passou a ser horrível, o que era feliz passou a ser um peso e tudo ficou difícil, confuso e, ao mesmo tempo, eu demorei a entender que não era (só) São Paulo. Era eu. Eu tinha mudado, eu não cabia mais em cinema, eu não tava mais afim de morrer de trabalhar, eu não tava mais afim de pensar direção de arte. Eu me mudei em 2011 e só no final de 2012 eu deixei, de fato, de ser assistente de arte/produtora de objeto. Foram 2 anos enlouquecedores, eu olho pra trás e nem consigo lembrar como foi que eu saí do buraco que eu tava, sinceramente.

Daí, o resto vocês já sabem: eu virei consultora de estilo, eu to aqui hoje feliz da vida, eu sou dona do meu tempo e é um privilégio infinito trabalhar com o que eu acredito, ser dona do meu próprio tempo, pensar coisas novas e legais todo dia e conciliar maternidade e carreira. E pagar as contas, porque pra mim trabalhar com moda nunca foi hobby — e que venho até remoçando, me pego cantando sem mais nem porquê. tantas águas rolaram, tantos homens me amaram bem mais e melhor que você.

E aí eu volto pra ‘olhos nos olhos’, eu penso que eu nunca desisti. Eu repensei. Eu parei um dia e decidi: eu não quero viver assim. Nunca foi: eu não consigo, eu não dou conta, eu não me acho boa o suficiente [o que também nem tem problema sentir, né, gente, mas enfim]. Eu poderia ter passado o resto da vida fazendo cinema, sofrendo, mas poderia. Eu nunca seria uma diretora de arte tão boa quanto eu sou como consultora de estilo [só hoje eu enxergo como arte era difícil e como moda é muito natural e intuitivo pra mim], mas eu poderia ter continuado lá. E eu nem tenho esse orgulho ‘eu nunca desisto’. Desisto, sim, desisto pra caralho, desisto toda vez que eu achar que desistir é a melhor parada. Mas a sensação que eu tenho com cinema é que eu não desisti, que eu realmente repensei. Grazadeus eu consegui parar e olhar pra mim. Séculos de terapia não foram em vão, hahaha.

Lá em 2012, depois de um dia pavoroso, eu cheguei em casa e falei: nunca mais piso num set. Nunca mais [taí um ‘nunca mais’ que durou pouco, pouco tempo depois eu já fiz alguns muitos sets como stylist, hahaha]. E hoje eu volta e meio penso ‘putz, qualquer dia eu quero fazer um figurino. num filme. num filme que eu goste, que eu acredite.’. Um dia, sem pressa, quando rolar, quando for pra ser, quando for bom e leve. Quando talvez precisar de mim, cê sabe que a casa é sempre sua, venha, sim. <3

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