Não Se Desculpe, Não Se Justifique: É o Seu Corpo

Dia desses eu tava com uma cliente em uma loja, no provador, e uma outra mulher me pediu ajuda. Ela sacou que eu sou consultora de estilo e me pediu opinião em uma blusa.

“Vê o que você acha? Essa blusa ficou boa em mim? Mas olha, não repara a gordurinha nas costas, tá? É que fiz uma cirurgia e tô sem treinar há mais de um mês, aí fica essa coisa horrível, mas vou voltar e aí ela vai embora” 

Fiquei com algum incômodo de ouvir o que ela disse mas não saquei na hora, mas fiquei com isso na cabeça. Depois de uns dias comecei a perceber como nós, mulheres, nos desculpamos o tempo inteiro pelo nosso corpo. Sem parar, todo dia. A gente se desculpa pela gordurinha, por ser muito magra, por ser baixinha, por ser alta, não aceita elogio [raaaaaramente eu ouço alguma mulher respondendo ‘obrigada’ a um elogio], acha problema em cada micro pedacinho do nosso corpo, n-u-n-c-a tá bom… Tanto é que já existe até plástica para redução dos pequenos lábios vaginal. Até nossa vagina tem problema!!!! Tá puxado, sinceramente. A gente não entendeu ainda que o nosso corpo é nosso jeito de estar no mundo, é nossa ferramenta, é com nosso braço gordinho que abraçamos quem a gente ama e é nossa bunda com celulite que a gente levanta todo dia e faz do mundo um lugar melhor.

A alma não sai pra passear sozinha, é preciso gostar mais do nosso corpinho.

Eu sei, o caminho da auto estima é longo, mas eu sugiro que a gente pare de se desculpar, para de se justificar. Já é um começo. Desconfio que esse seja o primeiro caminho pra se amar mais, pra melhorar a auto estima, pra se relacionar melhor com o seu próprio corpo. Afinal de contas, é seu corpo, é sua ferramenta no mundo, é seu, só seu. É você. Não tem nada de errado com você, não é desonesto ter gordurinha, não é falta de caráter ser baixinha e não tem nenhum problema real em não cumprir um padrão estético. E, olha!, cada vez que a gente fala alto, verbaliza, que ter gordurinha é um problema a gente reforça isso no nosso inconsciente. Se isso já não fosse ruim o suficiente, a gente ainda faz as mulheres que estão em volta sentirem a mesma coisa. A minha cliente, na cabine do lado, certamente checou as costas e pensou ‘será que a minha blusa também marca as gordurinhas? Porque ter gordurinhas é um crime, um erro’. A gente não só se sabota como também espalha a sabotagem prazamiga.

Eu, pessoalmente, já me vi justificando uma mancha que eu tenho na perna – e que nasceu comigo! Já odiei tanto essa mancha que, há muito tempo, consegui uma dermatologista maluca que me fez passar um ácido tão forte que a pele da minha perna saiu junto com a calça jeans. A pele se recuperou, mas a mancha continuou (e continua!) lá. Igual. Passei a adolescência inteira sem usar short e saia por causa da bendita mancha e sabe o que resolveu? Nada. Só passei calor.

Depois que Miguel nasceu eu comecei a justificar a minha magreza (fiquei mais palita), a minha bunda pequena, o meu peito pós amamentação até que um dia eu cansei. Não foi muito consciente, mas passou, não dou mais pra ninguém o poder de me deixar chateada quando o assunto é o meu corpo. Quando um hater me chama de feia ou afins eu assimilo de um único jeito: o corpo é meu, eu sou assim, eu gosto de ser assim, supere.

Não dar para o outro o poder de avaliar o seu corpo é revolucionário. Experimenta! 🙂

E, por fim, quase não vejo homem se desculpar pelo corpinho que tem e, bom, assim como todo mundo, a maioria dos homens também não cumpre os duros requisitos de padrão de beleza, né? A maioria também não é aquela bela estampa de aprovação popular, concorda? Homem fica careca, tem gordurinha, barriga de chopp, se veste mal, não faz a barra da calça (hehe) e a gente acha lindo, bate palma, paga paixão, passa pano… O lance é bater palma primeiro pra você, depois pro outro. E isso não é egoísmo.

É só um pensamento solto e um convite pra pensar também: não se desculpa, não se justifica, tá ótimo assim, desse jeitinho.

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