Sobre Ser Inteira

Se minha mãe estivesse viva hoje seria aniversário dela. Sofro mais hoje que em qualquer outra data porque amo aniversário e não supero não ser hoje dia de festa. Minha capricorniana preferida ia comemorar <3.

Em 14 anos minha mãe me ensinou a gostar de ler, a falar inglês, a ser independente, a empreender, a conciliar maternidade-carreira-felicidade. Ela me ensinou a escrever diário, a não ter medo de desafio, a falar o que eu sinto. Me ensinou a rir alto, a comer chocolate, a gostar de ser quem eu sou, a ficar confortável na própria pele. Ela era feminista antes de mim. Foi ela que me disse que eu gostava de andar na beirada no precipício e que homem não é tudo igual. Fecho os olhos e lembro de todas as roupas que ela tinha, do fusquinha branco, da letra cheia de curva, da força da natureza que ela era. Lembro do mulherão, mesmo quando ela já morava no corpo fraquinho. Ela nunca foi pequena.

Há (quase) 20 anos ela me ensina a perder. Todo dia. Perdi minha mãe todos os dias desde agosto de 1998. Quando voltei da Inglaterra e ela não estava mais aqui. Quando passei no vestibular e não podia ligar pra contar, quando transei, quando tomei um pé na bunda, quando me apaixonei de novo, quando fiquei perdida. Quando me mudei de apartamento 5 vezes em 1 ano. Ela não tava aqui pra me ajudar. Em todos os natais, dia das mães, aniversários, em todos os dias bobos e corriqueiros eu perdi a minha mãe. Perdi mais uma vez quando Miguel nasceu, quando me separei, quando meu trabalho começou a dar certo. Vou perder de novo quando completar 34 anos e começar a viver uma idade que ela nunca teve. Lose something everyday. Há 19 anos e 5 meses eu perco a minha mãe.

Outro dia li que quem é livre tem também a obrigação de libertar mais alguém. Fiquei com isso na cabeça e esse textão-drama é o meu jeito de dividir a minha liberdade com quem tá passando pela mesma coisa que eu já vivi. Eu já to do outro lado da ponte, me sinto sobrevivente de tragédia (juro!) e eu gosto de pensar que sou a prova viva de que da pra ser feliz mesmo depois de quebrar todos os ossos do corpo. De bater a barriga no fundo do poço.

Eu sou muito feliz, sou mesmo, de verdade. Sou feliz mesmo sentindo saudade da minha mãe todo-santo-dia e morrendo de inveja de quem tem a mãe aqui. Mesmo assim (ou talvez por isso), eu não vivo as coisas pela metade, não tenho medo de me envolver com as pessoas, não fiquei hipocondríaca, não tenho trauma de hospital. Virei adulta antes do tempo, fiz séculos de terapia, tenho pânico de ficar incomunicável, nunca mais fui a Londres e tive pena de mim váááárias vezes. Mas eu sou inteira. Colei meus pedaços, acomodei o rombo no peito, aceitei as cicatrizes e sou inteira.

Eu não sou parâmetro do mundo e essa é só a minha história hoje, mas se rolou pra mim é porque é possível. Se eu for uma brisa de esperança, já tá valendo. 🙂

 

 

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