A treta da silhueta

Tem um assunto muito treta, mas também muito importante, na consultoria de moda e ele se chama silhueta. E pra contextualizar e fazer esse conteúdo chegar em quem não é, necessariamente, colega de trabalho, eu vou trazer um pouco da história da silhueta. 

Silhueta, pelo dicionário, significa desenho que representa o perfil de uma pessoa ou objeto, de acordo com os contornos que a sua sombra projeta. Na consultoria de moda, silhueta é usado como um sinônimo de forma/formato do corpo. Pensando na história da beleza, que encontra a história da consultoria de moda, o formato do corpo humano sempre foi um assunto, as pessoas sempre discutiram o corpo dos outros. E as técnicas que a gente usa e conhece hoje em dia já existiam, na real, láááá no Renascimento e a ideia do homem vitruviano. Resumindo bem rapidão, pra gente conseguir seguir em frente, Da Vinci criou o homem vitruviano como símbolo do ideal clássico de beleza. Ou seja: Equilíbrio, harmonia das formas e perfeição das proporções. Da Vinci juntou filosofia, matemática e arquitetura pra criar esse homem ideal aí, mas que não existe na vida real, né?

As famigeradas regras de silhueta na consultoria de moda

E foi partindo dessa ideia de ideal de beleza que surgiram aaaanos depois (já nos anos 70) as famigeradas regras de silhueta na consultoria de moda. Partindo de um ideal de beleza (problema 1), a consultoria analisou quais eram os formatos de corpos mais comum no mundo das pessoas magras (problema 2). Porque nessa época ser gorda era sinônimo de “estar acima do peso ideal”, ou seja, sinônimo de que ninguém deveria ser daquele jeito (problema 3). E concluiu dizendo como cada corpo fora do ideal deveria se vestir pra ficar mais parecido com a silhueta ideal (problema 4). E, pra fechar o circo do horror, eu acho sofrível e tristíssimo quando o vestir está pautado no formato do corpo e não no que a gente gosta, admira, tem vontade usar, quer comunicar… (problema 5). Essa construção de silhueta na consultoria de moda serve apenas ao propósito gordofóbico de dizer que há apenas um corpo que pode ser feliz, ter prazer e vestir o que desejar. 

Outras belezas além da silhueta ampulheta

E até aí, bom, qualquer pessoa razoável e vivendo em 2021 consegue concordar que é muito absurdo dizer que só há um jeito de ser bonita: tendo silhueta ampulheta. Ou então tentando maquiar suas formas pra que ombros e quadris pareçam ter a mesma medida e a cintura seja ou pareça ser mais fininha. O problema é que o que achamos bonito é realmente uma construção cultural e são séééééculos de imagens, vídeos, filmes, textos, revistas, dizendo que o bonito é isso. E aí, quando uma consultora de moda se vê precisando trabalhar, atender cliente e vestir outra pessoa, ela se pega, sim, usando todas as regras absurdas de silhueta. A consultora fica mesmo sem saber o que fazer porque, pensa só, a pessoa que tem o quadril mais largo que os ombros fica mesmo “esquisita” de saia lápis. 

Entender não significa usar

A treta fica maior quando a gente admite que, de fato, não dá pra ser consultora de moda sem entender todo esse absurdo de silhueta, mas que entender não significa usar, não significa precisar saber medir um corpo para contabilizar essa geometria. Entender significa estudar tudo isso a fundo pra conseguir mapear quando uma cliente diz que não curte cintura alta ou que não mostra os braços ou que se sente mal de tênis cano alto. É preciso entender de onde vem o desconforto de quem a gente ajuda a pensar o vestir. E somos todas filhas da mesma sociedade, sendo assim, em geral, vem de alguma ideia de silhueta ideal – mesmo pra quem nunca leu nadinha sobre o tema.

E a coisa vai ficando mais grave porque até hoje ninguém propôs ainda um outro jeito de fazer funcionar. Ou seja, a gente sabe que não dá pra referenciar a uma única silhueta. Mas a gente não tem outra ferramenta pronta, bem copia-e-cola, com lista de pode e não pode, que seja mais inclusiva.

Silhueta não é fruta

Aqui na F*inc a gente não mede ninguém, ponto final. A não ser que seja pra mandar roupa na costureira ou pra comprar online, não usamos fita métrica. A gente entende que cada mulher é dona do próprio corpo e se concentra em valorizar o que cada pessoa curte. Evitamos demaaaaais ensinar a “disfarçar”. Também não usamos nunca jamais essa nomenclaturas de fruta e nos esforçamos ativamente pra achar bonitos corpos diferentes. A gente acredita que pra ser consultora de moda é inegociável a disponibilidade para expandir o olhar, para ver beleza onde em geral não veríamos. É claro que tem gente que tem o tronco mais curto que as pernas. Mas a nossa função não é negar a matemática da coisa, a nossa obrigação é se perguntar: “Mas por que isso é feio? Feio e bonito é construção social, não é um dado. Tá tudo bem ter o tronco mais curto e amar cintura alta, o exercício é entender que isso também pode ser bonito”.

Não topamos fazer sempre referência a uma ideia de corpo ideal

Mas esse é o caminho difícil. Difícil porque não vem com uma lista de peças para usar X peças para evitar. Para cada cliente vai ter uma resposta e a resposta vai vir dela, do espelho e do estilo. E da vontade de comunicar uma ideia, da paixão de usar um item, do desejo de um conforto específico. Da necessidade de navegar no mundo de uma determinada maneira. Funciona muito bem pra gente aqui, mas eu percebo que não funciona pra maioria das consultoras de moda que, inseguras, não topam esse exercício. 

Mas é nossa obrigação atualizar essa ideia de silhueta, é nosso compromisso ético dizer que não topamos fazer sempre referência a uma ideia de corpo ideal. Que, convenhamos, quase ninguém tem. E pode ser também nossa missão pensar outros jeitos de entender essa ferramenta que usamos para ocupar o mundo, esse nosso corpo material. Ainda que a gente saiba que vestimos mesmo é o corpo que acreditamos ter e não o que temos.

O subversivo que nos interessa

Consultora de moda é capaz de fazer um rombo gigante na auto estima de alguém. E não somos, por outro lado, capazes de sarar todas as marcas de dor a que um corpo feminino foi submetido ao longo da vida. 

Esse é o subversivo que nos interessa: ir contra essa normas, regras, status quo. Todas as regrinhas de alongar silhueta, por exemplo, funcionam mesmo. Mas precisa? Só dá pra ser feliz, gata e bem vestida se for alongada? É esse o mundo em que a gente quer viver? É essa a moda que a gente quer vestir? Eu não.

4 comentários em “A treta da silhueta”

  1. Giovana Villanova Maciel

    Obrigada, Thais, por não topar essa moda e por lutar por um mundo melhor com coragem e determinação. A sua fala é essencial e necessária. Parabéns!

  2. Juliana Guedes da Fonseca

    Amei Thais! Sou consultora e acredito muitooo nisso! Doida pra fazer seu curso de consultoria, vc arrasa muito! Bjos

  3. Adorei, Thais! Temos que usar a moda para nos sentirmos mais bonitas e felizes, e não para atender a um padrão de beleza ou estar mais próximo deste ideal. Moda é diversão, é comunicação e ferramenta pra aumentar a auto-estima. Espero que cada vez mais tenhamos mais liberdade em nos vestir como gostamos e com conforto.

  4. Muito bom, Thais! Temos que usar a moda para nos sentirmos mais bonitas e felizes, e não para atender a um padrão de beleza ou estar mais próximo deste ideal. Moda é diversão, é comunicação e ferramenta pra aumentar a auto-estima. Espero que cada vez mais tenhamos mais liberdade em nos vestir como gostamos e com conforto.

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