Década de 20: Um Corte Radical na Linha do Tempo Capilar

[Convidei uma amiga querida, Isabela Mota, para escrever um post aqui pro MTDF sobre história da beleza e/ou o que ela curtisse mais. Ela escolheu os picumãs da década de 20 e eu ameeeei. Já pode querer fazer mestrado em história da beleza?! <3  O post abaixo é dela, escrito por ela, com imagens que ela pesquisou e eu arrisco dizer que é um dos posts mais lindos aqui do blog. :))]

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Ultimamente o que mais tenho pesquisado na interwebs é a década de 20 do século passado, quando a luta pela emancipação feminina iniciada na virada se intensifica, transformando hábitos, guarda-roupas e penteados. Acho tão bonito ver na moda dessa época a liberdade que as roupas mais soltas e curtas vieram a proporcionar na era pós-espartilho… E os cabelões, que deviam dar um super trabalho no início do século XX, são dispensados em benefício dos cortes curtos.

Uma pequena pausa em “cabelões que deviam dar um mega trabalho no início do século XX”. Geralmente os cabelos eram longos para dar volume aos penteados, apenas crianças costumavam usá-los soltos. Não era todo mundo que tinha um mundão de cabelo, então eram comercializados apliques de vários estilos. Pesquisando a moda do cabelo na altura do pé (quem nunca?), cheguei ao período eduardiano, isto é, entre 1901 e 1910 no Reino Unido (durante o reinado de Eduardo VII, daí o nome), onde encontrei belos registros de cabelos longos, cabelos longos nível Rapunzel e cabelos longos nível Rapunzel Ultra Mega Master Megazord.

década de 20 e os cabelos 1Cabelos longos, Cabelos Rapunzel e Cabelos longos nível Rapunzel Ultra Mega Master Megazord (gente essa última moça é só cabelo!)

A abastança capilar era sinônimo de feminilidade e beleza (ainda é, né?). Aqui nos trópicos, sobretudo no Rio de Janeiro, capital do país, a referência estética era principalmente a Belle Époque francesa (1890-1914), período em que inovações técnicas, como o telefone, o cinema e o automóvel, foram popularizadas e ensejaram mudanças na visão de mundo dos habitantes das grandes cidades. O que fazia a cabeça de então eram os cabelos presos, os penteados no estilo “Pompadour” (aquele topetão na frente com coque no topo), além de apliques mil e chapéus nada discretos que eram carregados de flores e ornamentos do tipo.

década de 20 e os cabelos 2Penteado Pompadour / Chapéu ou guarda-sol? Parece Paris, mas essas dondocas estão em pleno Rio de Janeiro (Foto de Augusto Malta,1908)

década de 20 e os cabelos 3Apliques mil. Vai um cachinho aí? (Revista Fon Fon, 1910)

Se em 1900 era dever da mulher ser “a rainha do lar”, a partir da década de 10, “a moça de boa família” passa a sair sozinha, dispensado a dama de companhia ou a presença de algum familiar. Aos poucos, a frequência feminina começa a impor-se também nas atividades econômicas, afinal a crise entre-guerras (1918-1939) estava correndo solta e colaborar para a renda familiar tornou-se um imperativo. Embora as oportunidades de emprego fossem muito desiguais em relação aos homens, as moças se lançavam/eram lançadas no mercado de trabalho e algumas profissões chegaram a firmar-se como típicas para mulheres: tínhamos aí a secretária, a datilógrafa, a telefonista… Nas famílias mais humildes, o costume de auxiliar o marido nas contas do mês era mais antigo, e às mulheres cabia trabalhar como criada, lavadeira ou costureira, por exemplo.

A moda, cla-ro, acompanhou a modernização da mulher e de seus costumes. O cotidiano feminino requeria mais praticidade na arrumação dos cabelos e as tesouras viraram nossas melhores amigas. Com o aumento de auto-estima e de auto-afirmação de gênero, o uso da maquiagem também foi bastante intensificado. O modelo de mulher moderna era difundido mundo afora pelas atrizes de Hollywood: cabelos curtos, batons escuros e olhos dramáticos eram as tendências de beauté.

década de 20 e os cabelos 4As lindas atrizes dos anos 20: Louise Brooks com seu corte à la garçonne (na altura das orelhas), Gloria Swanson, ready for her close up, com seu corte “bob” (na altura do maxilar) e Clara Bow com o ‘bob’ super ondulado e com franja.

década de 20 e os cabelos 5Vejam a cara de felicidade da estrela americana Sylvia Sidney cortando as longas madeixas…

década de 20 e os cabelos 6Grande pedida da década de 20: a ondulação Marcel (Marcel Waves, no original), conquistadas pelo bisavô do babyliss (o aparelho de ferro para ondulação foi inventado pelo cabeleireiro francês François Marcel em 1872, que aquecia o troço a gás).

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Cabelo crespos dentro da moda melindrosa (flapper, no original): Lindo penteado lateral de moçoila cujo nome não sei, corte “joãozinho” carregado com produtos de fixação da cantora e dançarina Josephine Baker e alisado com ondas leves da maravilhosa Marian Anderson, contralto e primeira estrela afro-americana de ópera.

Por último, a musa sufragista Eugenia Alvaro Moreira (brasileira que foi jornalista, atriz e diretora de teatro, uma das pioneiras do feminismo) ostenta o corte “à la garçonne”, que em uma tradução literal significa “à maneira de menino” (Georgina O`Hara explica, pois jamais saberia: “La Garçonne é o título de um romance de Victor Margueritte, publicado em 1922. Foi considerado obsceno, pois descrevia os despreocupados excessos sexuais de uma aluna da Sorbonne que teve um filho ilegítimo. A heroína, que usava cabelos curtos, camisa, gravata, paletó e outras roupas de estilo masculino, transformou-se em símbolo da mulher liberada, ativa e moderna.” Valeu, Georgina, beijos.

As revistas femininas ajudavam pacas nas decisões capilares, divulgando as formas possíveis de ficar na moda.

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A Revista Feminina (1914-1936), de São Paulo, fez até uma brincadeira entre cortes de cabelo e profissões, em 1924. A Revista indagava se o cabelo curto não seria “um sintoma de emancipação do belo sexo”. Eu voto que sim, hehe.

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Acordou com cabelo podrinho nos anos 20? Sem drama, capricha no chapéu cloche.

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Paixão dos anos 20, que por mim jamais teria cessado de existir (#aloka), o chapéu cloche foi usado desde 1915 até meados da década de 30. (Cloche quer dizer “sino” em francês, por isso esse nome, que remete ao formato da fofura de chapéu.)

E para finalizar, as famosas melindrosas de J. Carlos, o artista genial que mora no meu coração (mas, sejamos francas, existem várias charges dele zoando a liberação feminina).

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As misses e seus cabelinhos, desenho de 1927 (pouco traço e muita expressão, como pode? A maioria não tem nem nariz!)

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Capas de J. Carlos para a revista Para Todos (A revista existia desde 1918 e era um periódico exclusivamente voltado para o cinema. Em 1926, a revista se reestrutura e começa a inverstir mais no público feminino, segmento com grande potencial consumidor).

13 comentários em “Década de 20: Um Corte Radical na Linha do Tempo Capilar”

  1. Uma pausa para recuperar meu folego hahahah ….
    Eu sou mega suspeita de dizer que amei o post porque a década de 20 foi parte do meu TCC como maquiadora <3 e vou concordar com a autora, o chapéu cloche podia ficar pra sempre hahaha.

    Bjs

  2. Uma pausa para recuperar meu folego hahahah ….
    Eu sou mega suspeita de dizer que amei o post porque a década de 20 foi parte do meu TCC como maquiadora <3 e vou concordar com a autora, o chapéu cloche podia ficar pra sempre hahaha.

    Bjs

  3. Uma pausa para recuperar meu folego hahahah ….
    Eu sou mega suspeita de dizer que amei o post porque a década de 20 foi parte do meu TCC como maquiadora <3 e vou concordar com a autora, o chapéu cloche podia ficar pra sempre hahaha.

    Bjs

  4. Uma pausa para recuperar meu folego hahahah ….
    Eu sou mega suspeita de dizer que amei o post porque a década de 20 foi parte do meu TCC como maquiadora <3 e vou concordar com a autora, o chapéu cloche podia ficar pra sempre hahaha.

    Bjs

  5. Uma pausa para recuperar meu folego hahahah ….
    Eu sou mega suspeita de dizer que amei o post porque a década de 20 foi parte do meu TCC como maquiadora <3 e vou concordar com a autora, o chapéu cloche podia ficar pra sempre hahaha.

    Bjs

  6. Adorei! Sou suspeita, estudo história e gênero, mas o texto está muito bem escrito, agradável de ler, conciso e não deixa de lado pequenas e importantes considerações. Quero mais textos cabelísticos e da Isabela Mota. 🙂

  7. adoro! adoro cabelo curto, acho prático e nunca consigo deixar o meu passar muito dos ombros! no momento ta chanelzinho, arriscaria dizer que está um pouco anos 20 – e eu aqui em devaneios, como se fosse uma melindrosa… amei o post!

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