Moda e Câncer de Mama

Júlia Pessôa para Farage Inc

Boa parte do conteúdo de moda para quem tem câncer de mama parece querer “compensar” alguma coisa. Lenços e turbantes para disfarçar a queda dos cabelos e/ou proteger o couro cabeludo do sol e do frio. Maquiagens para “valorizar” os olhos, a boca, o rosto de uma forma geral. Peças que escondem os vestígios das cirurgias, agulhadas e muitos procedimentos que vêm com o tratamento.

Óbvio que cada paciente tem uma maneira de lidar com a doença, mas pessoalmente acho que se fala pouco sobre como viver com câncer em vez de buscar formas de ocultá-lo. Os tratamentos normalmente são longos, e há também os cânceres metastáticos, em que se controla a doença com cuidados paliativos e, atualmente, muita qualidade de vida e perspectivas de longevidade. E é claro que esse modo de viver se reflete na maneira como a gente se veste e se expressa pela moda, por mil motivos.

Um deles é a praticidade mesmo. Para ter mais conforto na infusão da quimioterapia, fiz a implantação de um cateter no peito, uns quatro dedos abaixo da clavícula. Em vez de fazer a quimio injetada nas veias, que vão enfraquecendo, essa opção permite que o medicamento seja aplicado diretamente no dispositivo. É como uma conexão USB com os remédios.

E o que isso tem a ver com moda? Bom, esse cateter, que é subcutâneo, precisa ser acessível. Então as equipes pedem que a gente use blusas decotadas ou de botão para facilitar. Mas chega um momento em que a gente se cansa de usar decote e camisa, e saber que existem tecidos maleáveis de modelagens diferentes ajuda a não cair no tédio na hora de escolher o que vestir. Até porque em tratamentos como o meu, há momentos em que o protocolo de tratamento é fazer quimio toda semana.

Dito isso, tecidos com pouca ou nenhuma elasticidade como jeans, linho e até alguns tipos de malha e tricô dificultam o acesso ao cateter, então melhor descartar. Mas há vários outros mais maleáveis e confortáveis que permitem que a gente fuja da fórmula camisa ou decotão.

Outro toque de ouro é que a maioria das medicações dá muita vontade de fazer xixi. Como na maioria das vezes a gente fica conectada a tubos de medicação, é bom pensar em saias, vestidos ou calças que não tenham fecho – as de elástico são sucesso. Macacão é pra quem vive perigosamente – até usei, mas não recomendo. Nessa mesma toada, alguns remédios dão um sono descomunal, então pensar em peças confortáveis pra dormir sem apertar, pinicar ou ficar descoberta é um pulo do gato.

Ainda sobre o cateter, durante um tempo é preciso ter um cuidado extra com o local, até os pontos da implantação cicatrizarem. Aí é até bom evitar o decotão para ajudar a prevenir infecções, já que a quimio detona a imunidade e nos deixa mais suscetíveis a elas. Nesse período, outra dica é evitar tecidos que soltem muitos pelos, porque eles podem agarrar no curativo ou nos próprios pontos e aí pode acontecer o que? Infecção! Com tantas restrições que um câncer impõe, seria lamentável que, para pacientes como eu, que se divertem na hora de se vestirem, perdessem também esse prazer. Pode parecer superficial para quem acha moda uma futilidade – erro crasso. E para quem tá doente, ouvir coisas como “ah, o cabelo é o de menos” ou “mas é só uma roupa, o que importa é o tratamento” é desumanizante, anula dores reais e faz parecer como se a vida devesse girar só em torno do câncer. Como se fôssemos doentes e mais nada: sem desejos, prazeres, vontades, expressões Além disso, frente a uma doença tão ameaçadora e cheia de tabus, ter essa autonomia sobre o corpo por códigos de vestimenta e estilo tem um poder inestimável num cenário em que se controla quase nada.

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