O QUE SEU CORPO GORDO TEM VESTIDO?

look de mulher gorda e negra com casaco jeans, camiseta e saia xadrez

Quinze. Esse foi o número de shorts que vesti ontem em várias lojas até encontrar um único que me vestia bem. E isso parte da perspectiva que tenho enquanto gorda menor, mas a realidade para quem veste tamanhos acima do meu pode ser ainda mais complexa. No último dia 10 de setembro comemoramos o Dia da Luta Contra a Gordofobia e aproveito para trazer algumas reflexões sobre o que o corpo gordo tem vestido e muito do que venho aprendendo e pensando nos últimos anos como uma consultora de moda, artista e pesquisadora que se autodeclara gorda. Bora bater um papo sobre isso?

1) GORDOFOBIA X PRESSÃO ESTÉTICA

Antes de mais nada: você sabe a diferença entre gordofobia e pressão estética? Pressão estética é algo que atinge todas as pessoas, inclusive magras, para que se adequem aos padrões de beleza vigentes. Já a gordofobia é uma opressão estrutural e desumanizadora do corpo gordo, que faz com que pessoas gordas não tenham acesso à dignidade humana, como realizar um exame médico ou caber confortavelmente na poltrona de um avião. Além disso, trata seus corpos como desleixados, doentes, sujos e inapropriados. Entender essa diferença ajuda a dimensionar melhor nosso lugar dentro dessa estrutura.

2) SOBRE A OBRIGAÇÃO DO “ROMÂNTICO AMPULHETA”

Dia desses, nos stories da também consultora de moda gorda Elaine Quindere, estava rolando uma discussão importantíssima: já repararam como a maioria das lojas plus size ainda tem um estilo mais romântico? Você já pensou que isso pode ser um tipo de “domesticação” do corpo gordo, corpo esse que é dissidente, fora do padrão e muitas vezes animalizado? O estilo romântico, dentro de um pensamento mais conservador e estereotipado sobre os 7 estilos universais, traz além de “doçura” e “feminilidade”, referências a uma silhueta ampulheta, mais “equilibrada”, com a cintura bem marcada, volumes em equilíbrio, onde nada sobra, nada marca, nada chama a atenção demais.

É uma ideia de mulher que performa uma feminilidade bem padrão, alegre e “bem cuidada”, bem aos moldes da esposa clássica das propagandas dos anos 50, sabe? Não seria essa uma construção estética para que o corpo gordo, nossa silhueta e personalidade sejam vistos como mais palatáveis aos olhos de uma sociedade gordofóbica e machista? Não teríamos que ter à disposição um leque de peças em diversas modelagens, cores e estampas para construirmos a imagem que bem quisermos? Para pensar: você tem usado o estilo romântico porque gosta ou por imposição social que às vezes nem percebe?

3) GORDA É SÓ O OPOSTO DE MAGRA

Importante lembrar disso, mas pode ser que você nunca tenha pensado melhor a respeito: ser gorda é (ou deveria ser) apenas uma característica que significa o oposto de ser magra! Ser gorda ou chamar alguém de gorda não deveria ser visto como algo pejorativo, porque fala apenas de uma característica corporal, como ser alta, baixa, magra, loira… O significado pejorativo que socialmente se atrela à palavra gorda é um resultado nocivo justamente da gordofobia! Usar eufemismos como “gordinha”, “fofinha”, “cheinha” e afins só faz parecer que você acha que ser gorda é ruim, feio ou tem menos valor. Precisamos ressignificar nossas falas, gorda não é xingamento!

4) VOCÊ TEM DIREITO DE SER EXTRAVAGANTE

Mulheres gordas são constantemente retratadas como as engraçadas, legais, coadjuvantes, apagadas, desleixadas, já reparou como em filmes e novelas a mulher gorda quase nunca é a protagonista bem sucedida e popular, mas sempre a amiga da protagonista que tem um corpo super padrão? Você não tem que “compensar” nada porque é gorda! Lembre-se que você tem o direito de ter o estilo que quiser e de ser extravagante também! Você ainda se pega evitando usar combinações de peças mais largas ou mais justas, cores mais fortes e/ou estampas grandes, por exemplo? Dá uma olhada aqui na galeria de fotos pra se inspirar!

5) CORPOS GORDOS SÃO DIVERSOS

Roupa não é só sobre caber, é sobre vestir bem! Muitas lojas ainda não entenderam que fazer roupas pra mulheres gordas não é apenas aumentar o tamanho das peças feitas para magras. E que nem todo corpo gordo é como o das modelos plus size que elas usam como modelos de prova. Mulheres gordas precisam de roupas pensadas pra elas e os corpos gordos são tão diversos! Eu, por exemplo, tenho um corpo mais reto e coxas bem grossas, enquanto outras gordas podem ter costas mais largas, seios grandes ou pequenos, coxas mais finas ou mais bumbum…  Vai muito além de achar uma roupa que te caiba, mas sim ressignificar tudo que nos falaram que não era adequado e bonito no nosso corpo. Quanto mais você conhece seu corpo e do que gosta, mais fácil fica o processo de se vestir! 

Dica extra: A costureira pode ser sua maior aliada, fazendo ajustes em peças que tem potencial, mas que não ficaram perfeitas de cara. 

6) AS REFERÊNCIAS QUE VOCÊ SEGUE PARECEM COM VOCÊ?

mulher com corpo gordo vestida de amarelo com casaco estampado

Se entender gorda pode fazer parte de um processo de entender seu lugar no mundo, pertencer. Você pode querer emagrecer, e tudo bem! Você pode estar super feliz sendo gorda, você pode inclusive compreender melhor seu tamanho como mid size, por exemplo. Não existe um padrão a seguir na sua jornada, mas uma dica que me ajudou muito na construção do meu estilo ao longo dos anos foi acompanhar nas redes sociais muitas pessoas que tem o corpo parecido com o meu e o estilo parecido com aquele que vislumbro construir! Do que adianta só seguir no Instagram pessoas que fazem você se comparar e se sentir inadequada? Ver beleza no parecido faz com que a gente aprenda cada dia mais a ver beleza em nós mesmas! O trabalho da artista Milena Paulina (@olhardepaulina_), por exemplo, pode ser uma ótima forma de começar a se enxergar LINDA! <3

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