Quem faz as roupas e agora – quem faz nossas máscaras?

Um pouco do passado e do presente das máscaras que estamos usando

Esse texto está sendo escrito enquanto estamos há alguns meses em um “isolamento meia tigela”, impactados pelos desafios impostos pela epidemia do Covid-19 e enquanto brasileiros sofrendo ainda mais com um desgoverno federal vergonhoso que não nos oferece segurança ou perspectiva alguma. Qual o solução? É a pergunta que que não se cala nos dias atuais. Não há resposta, afinal até essa data (agosto) não temos ainda vacinas prontas. Mas podemos partir de uma frase-meme da nossa geração: a gente que lute! E como? Proteger-se e saber que fazer a própria parte é o mínimo, e ainda assim, o mínimo é muito pouco. Usar máscaras, sem dúvidas, hoje é mostrar empatia, é parte de um pacto social pelo bem comum. Não existe nada tão eficaz enquanto não tivermos grande parte da população imunizada. E ponto.

Ressignificando a cobertura do rosto

A gente odeia também os termos batidos como “novo normal” ou “ressignificar”, mas o uso de máscaras de fato já passou por diversas ressignificações dentro da história. Elas já representam segurança e proteção contra doenças e poluição; solidariedade; protesto; racismo; uma tendência da moda; e agora, pandemia. É louco pensar em como um objeto (acessório hoje, talvez?) ocupou um papel específico e comunicou coisas diferentes para diversas culturas ao longo da história. Quem gosta desse assunto, indicamos um texto super interessante do jornal norte-americano NYTimes ( em inglês apenas, infelizmente).

Funções das máscaras pelo tempo

Primeiramente as máscaras significam proteção. As máscaras surgiram na forma semelhante a que temos hoje na área da saúde para médicos usarem durante cirurgias e procedimentos para evitar a contaminação de feridas abertas. Em 1910 foram adotadas pelas autoridades chinesas para impedir a propagação da peste pneumônica, por exemplo. Alguns anos depois transicionaram para um fenômeno global adotada como proteção para a devastadora gripe espanhola. E com o passar dos anos foi protagonista na proteção de algumas outras epidemias. Por esse motivo na Ásia virou um símbolo de “conscientização da saúde e dever cívico”. Inclusive nessa pandemia eles foram os primeiros a recomendar máscaras cotidianamente porque já usavam (e o mundo inteiro desdenhou da recomendação, incluindo certas pessoas que lideram nações). Por pouco tempo até todos perceberem a eficácia de um mero pedaço de tecido com tiras.

Também já foram símbolos políticos como nos protestos pró-democracia em Hong Kong como a intenção de preservar a identidade dos participantes, já que o reconhecimento facial por câmeras já é uma realidade por lá.

Máscaras como item de moda

Atualmente vemos claramente como o item já vem chamando a atenção da moda e começou a ser introduzido nesse universo há uns anos. Em 2014 a coleção Qiaodan Yin Peng Sportswear colocou máscaras na passarela durante a China Fashion .Week. Também tivemos Masha Ma, uma designer chinesa que desfila em Paris, uma vibe bem “basiquinha” com o item cravejado de Swarovski em seu desfile da primavera de 2015. Recentemente já tivemos Off-White, Fendi e Gucci que fez uma máscara especial pra cantora Billi Eilish desfilar pelo red carpet do Grammy apenas como um acessório estético.

Em contraponto tivemos marcas que falam sobre condições climáticas usando máscaras como forma que questionar os impactos ambientais no mundo da moda, como Marine Serre uma marca eco futurista conhecida por suas estampas de meia lua, que desfilou máscaras em um dos seus últimos desfiles. E olha a gente resumiu bem, porque durante várias décadas as máscaras apareceram comunicando coisas diferentes.

Signo do tempo

Quer dizer que a gente não vai mais conseguir ver uma máscara e não lembrar da pandemia de 2020? Provavelmente. E hoje elas são sinônimo de bom senso e cuidado com o próximo. Sendo introduzidas no nosso dia-a-dia como essenciais, começaram a surgir opções personalizadas, com estampa, aplicações, tecnologias…

Com a demanda, muitas marcas de moda resolveram colocar mais identidade no acessório que até então não era visto por essa perspectiva. Obviamente quando unimos saúde pública, moda e consumo as chances de polêmica são grandes. Marcas de luxo, por exemplo, foram questionadas por venderem máscaras a preços altíssimos, mesmo indicando a reversão de lucros para causas, não fez sentido. Principalmente se lançadas ao mesmo tempo em que outras marcas produzindo com um propósito mais solidário cobrando apenas o frete, ou valores de produção para que mais pessoas pudessem usar. A real é que hoje introduzimos identidade nesse “acessório” porque já sacamos que o jeito é usar enquanto não temos alternativas. E aí com esse novo nicho de mercado e essas questões sobre valor, marca, acesso… chegamos ao ponto: como essas máscaras estão sendo produzidas?

Quem faz nossas máscaras

São produzidas de modo responsável respeitando as regras de distanciamento dentro das oficinas de costura? E quem faz? Produz em condições seguras e recebe uma remuneração justa pela produção? Como descobrir? E além disso: Será que estamos glamourizando demais o momento com tanta variedade ou apenas unindo o útil ao agradável? Ao ser colocada no mercado como um produto que virou um carro-chefe de muitas marcas, fazer essas perguntas é mais do que necessário e seguimos sem todas as respostas. Mas pensando em consumí-las e usá-las da forma mais consciente e responsável possível, a gente quer te convidar pra pensar sobre isso.

Momento de repensar a cadeia

Não é de hoje que a cadeia de produção do mercado da moda é questionada. Em uma matéria da Folha de São Paulo, a reportagem denunciou que oficinas de costura com trabalhadores imigrantes em São Paulo estavam pagando cerca de R$0,05 centavos por máscara. Valor que não cobre nem o material utilizado. Então, uma dica é buscar marcas que prezam pela transparência. Com informações e detalhes de onde tudo vem, como é feito, e se de fato é um item produzido em condições corretas.

Responsabilidade de todos

A gente acredita numa moda mais justa onde todos sejam remunerados com valores dignos pelos seus serviços. No meio da produção desse post, rolou uma entrevista do Emicida no programa “Roda Viva” no dia 27 de julho (você pode ver o trecho clicando aqui). “Eu conheço a cadeia produtiva com a qual eu trabalho, eu sei quanto ganha uma costureira, por exemplo. Eu não vou vender uma camiseta a R$ 9,90 para colocar uma mulher ganhando um salário de miséria” – e é sobre isso, ter responsabilidade no consumo (e na produção caso você tenha uma marca) pensando nessa cadeia, em seus processos, e principalmente em como isso afeta a vida e a família de outras pessoas.

Na prática

Na vida fora dos posts e discursos na internet isso tudo significa consumir menos ou com muito mais critério. Além de buscar marcas que já demonstram ética na produção, a gente precisa mudar a forma de fazer contas na hora de comprar um item. Um pacote de máscaras por um preço muito barato no e-commerce de uma grande rede significam uma remuneração por peça muito pequena, por exemplo. E por fim, se o seu trabalho não necessita de máscaras de uso profissional e hospitalar, quantas máscaras laváveis são suficientes?

DIY ou Shop Small

Além de consumir de marcas que prezam pela franqueza e transparência, podemos também fazer nossas próprias máscaras seguindo os milhares de tutoriais disponíveis no Youtube e outras redes. Ou consumir de pequenas marcas, de costureiras, e buscar associações de mulheres que estão produzindo em coletivos, por exemplo.

Finalmente, manda aqui pra gente suas ideias sobre isso? Conhece marcas legais e justas que estão produzindo máscaras? Projetos bacanas? Compartilha aqui com a gente e com quem nos lê!  

Força pra nós e vai passar!

4 comentários em “Quem faz as roupas e agora – quem faz nossas máscaras?”

  1. Harissa Bittar

    comprei há pouco tempo as máscaras da @lou_loja, são bem bonitas, com o preço em conta e produzida por duas mulheres. ==)

  2. pra quem é de porto alegre e região metropolitana tem um ateliê de máscaras só de mulheres fodas que sobrevivem disso na pandemia! no insta é @atelie.felker

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