Felicity e Se Arrumar Pra Ficar em Casa

Tem um episódio de Felicity (só quem nasceu antes de 1985 vai saber do que eu tô falando haha) em que a protagonista conta na terapia que o que ela mais sentia falta era de se arrumar pra sair. Não de ter um date ou do date em si, mas o que ela curtia mesmo era o processo de se arrumar, de se sentir gata, linda, cheirosa. Isso aparece como uma elaboração na terapia e aí a analista, naturalmente, sugere que ela tenha um date com ela mesma e se arrume não pra sair, mas pra ficar em casa, se curtindo – eu tentei muito achar o episódio no youtube e não achei por nada, se alguém encontrar me conta e eu coloco aqui pra todo mundo ver!

thais farage se arruma pra ficar em casa confortável

Pois bem. Esse episódio ficou grudado na minha cabeça porque eu simplesmente achava a coisa mais deprimente do planeta a Felicity sentada na sala de casa de mini saia justa e super maquiada – um look que não era nem de perto parte do estilo dela de todo dia. Eu achei muito baixo astral aquele negócio e não conseguia entender porque aquilo me incomodava tanto. Eu nunca me arrumei, desse jeito, pra ficar em casa. Nunca me maquiei “pra sair” pra ficar em casa. Tô pra te dizer que nunca nem testei maquiagens novas em casa, só testo quando vou sair de fato.

Entendendo melhor o meu “arrumada em casa”

Corta para 2020, pandemia, 1 ano e meio trancafiada dentro de casa e eu entendi bem rapidinho que não ia dar pra todo dia ser domingo e comecei a me arrumar pra trabalhar, pra jantar com o marido, pra fazer nada, pra brincar de estrelinha com o mig, pra fazer zoom, pra ficar em casa, sentada na sala. E, ao contrário da maioria das pessoas, eu me arrumava inteira, não só da cintura pra cima. Até sapato eu usei, todo dia.

E durante esse ano e meio, fui entendendo melhor o “se arrumar pra ficar em casa”. Sempre fui MUITO RUIM de look-pra-viajar-com-os-amigos-pra-uma-casa-na-serra.  Muito mesmo. Eu sempre comprava uma coisa de última hora (a fórmula do look ruim e do armário cagado começa assim, comprando no desespero), sempre ficava infeliz com a roupa, com frio ou desconfortável. Mas, com 1 ano e meio pra treinar esse “vestir cottage” todo dia, eu fui entendendo muito melhor qual é o meu “arrumada em casa”:

se arrumar pra ficar em casa e brincar com as crianças é diferente de se arrumar pra descansar ou trabalhar

Como funciona pra mim

  1. Eu não gosto mesmo de ficar descalça. Se eu vou ficar o dia inteiro fazendo coisas, se tô com as crianças ou trabalhando eu vou usar tênis. Chinelo não é um sapato de conforto por muito tempo pra mim.
  2. Se eu tô de romance ou de preguiça, se o programa é ficar vendo série, ou de agarro na cama, aí sim, eu vou usar pantufa.
  3. Me sinto ótima com roupa hiper confortável, em geral sou mais friorenta e minha casa é mesmo mais fria. Amo conjunto de moletom, blusas de manga longa com transparência, casaquinhos… não gosto de calça reta ou pantalona pra ficar em casa, curto jogger ou legging. Se tá bem calor, eu curto shortinho, saia midi, camiseta com algum charminho. AMO regata, JAMAIS fico de regata em casa, sinto frio, hahaha. Amo roupão felpudo, amo roupão de algodão, não curto os de seda, em geral.
  4. Roupa pra ficar em casa gatinha-gostosa é, pra mim, 100% algodão ou 90% tecido natural, tipo cashmere, lã, liocel. Eu não sou muito da seda (acho gelada, haha) e não sou fã de roupa de ginástica pra esse momento.
  5. Roupa pra ficar em casa com as crianças? 100% tecido tecnológico, roupa de treino, biquíni e por aí vai. Nessa hora eu prefiro até não ficar muito quentinha pra não ficar com preguiça, haha.
  6. Roupa pra ficar em casa e trabalhar? Uma mistura das duas anteriores, haha. Não fico de conjuntinho de moletom porque vai me dando preguiça, não fico 100% de roupa de treino porque sinto falta de charme. Dou uma misturada, mesmo. Coloco mais acessórios, calço um tênis mais legal.

Mudar o referencial: me vestir pra mim e não para o outro

Depois de séculos eu entendi que o meu desconforto com a Felicity é essa ideia de que “se arrumar” parte de um referencial pro outro. Quando ela quer ser vista (é isso que a gente faz em date, né), ela curte vestir mini saia e se maquiar mais (e vai saber se curte mesmo ou se é só o status quo, mas essa discussão eu guardo pra outro dia haha). E a gente se acostumou a colocar o “se arrumar” sempre no lugar de ser vista pelo outro. E isso me deprime muito. Se eu tô me arrumando pra ser vista e não vou ser vista, acho muito baixo astral hahaha. Acho super natural querer chegar-chegando, gatona, mas o “se sentir gata” não pode ser só isso, gente.

Toda vez que eu falo no Instagram que tô gatinha pra ir dormir comigo mesma, muita gente comenta “ah, legal, mas eu gosto mesmo é de ficar confortável quando tô em casa”. E por que ficar confortável não é sinônimo de arrumada? Porque que “arrumada = maquiada” ? Arrumada = salto? Arrumada = sofrência? Eu não consigo entender porque um pijama delícia e que você se sente linda usando não é arrumada. Pra mim é, e pra mim, me arrumar pra ficar em casa, é o maior treino possível para mudar o referencial: me visto pra mim e não para o outro. Em qual roupa eu me acho linda (e confortável)? Em qual roupa eu fico me sentindo super produtiva, ótima pra um home office? Em qual roupa eu me sinto eu mesma porém versão fitness? Ou versão mãe?

Se eu me visto pra mim, pra me fazer feliz, eu só preciso me conhecer

É óbvio que vamos sempre nos vestir um tanto pros outros também. É impossível negar que somos vistas e que muitas vezes adoramos esse jogo. Mas o vestir precisar ser majoritariamente sobre a gente mesma e pra gente mesma. Não dá pra colocar todas as fichas no outro, o outro é muita gente e impossível de ser agradado. E isso muda geral quando o referencial muda: se eu me visto pra mim, pra me fazer feliz, eu só preciso me conhecer, só preciso ir testando e percebendo como eu me sinto bem, como eu me sinto gata, como eu me sinto eu mesma – tá certo que é um exercício sem resposta final e que a gente vai se descobrindo ao longo da vida inteira, mas eita jeito gostoso de viver!

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