Venha Até São Paulo Ver O Que é Bom Pra Tosse

Vocês conhecem essa frase? Uma vez em uma festa alguém me disse dela e fiquei com isso na cabeça pra sempre. Era um conversa sobre como SP é opressiva com as distâncias + trânsito + transporte público ridiculamente precário e essa frase é parte da música ‘Venha até São Paulo’ do Itamar Assumpção. E faz muito sentido, gente. Haha. Mesmo quem ama a cidade concorda que ela é zero democrática, é opressiva, violenta, angustiante, massacrante.

A verdade é que eu moro lá há quase 3 anos e sinto como se tivesse acabado de me mudar. Tenho pouquíssimos amigos na cidade, acho as pessoas super inacessíveis, o trânsito é, de fato, caótico e a cidade é muito violenta. Muito. Violenta num sentido mais amplo, não só de assaltos/sequestros/afins. Violenta porque te tira o direito básico de ir e vir, porque te mostra que ninguém se importa com nada além do próprio umbigo e há pouquíssimas opções de programas de graça – em SP ganhar dinheiro vira a coisa mais importante da vida. É um exercício diário não se deixar contaminar.

Sendo assim, é inevitável comparar. Já tô no meio da minha viagem [vim ficar 1 mês em ny] e, desculpa gente, mas chega a ser ridículo como as coisas funcionam. Eu, que tenho horror de dirigir e acredito piamente que um transporte público de qualidade transforma democraticamente uma cidade, tenho vontade de abraçar e beijar o metrô daqui. Funciona! Você chega em todos os lugares de metrô! E NY é enorme! Mesmo assim, todas as linhas funcionam, todo mundo usa o metrô – até de madrugada!  Claro que precisa fazer baldeação, trocar de linha, ficar atento com os trens pra não pegar algum errado… Mas, sinceramente, não tive vontade de pegar um taxi desde que cheguei. Estou apaixonada, o mapinha do metrô é o meu melhor amigo.

Apenas para ilustrar: para ir pra Pratt – faculdade no Brooklyn onde estão rolando umas palestras de moda – eu demoro uns 30 minutos. A faculdade fica a 10 km da minha casa, numa linha de metrô chatinha de pegar porque passa com menos frequência (a linha G). Em SP, o meu trabalho antigo ficava também a 10 km da minha casa e eu demorava 1h30 para chegar lá – 2 ônibus + 1 metrô. Como não ficar indignada? É o meu tempo indo embora pela janela. E eu moro em Perdizes, trabalhava no Jardins. Imagina quem mora longe de verdade? Isso também não é uma forma de violência?

Outra coisa que tenho sentido muita diferença é o medo de andar na rua. Eu  nunca tinha  entendido as pessoas que falavam que se mudaram do Brasil por causa da violência, eu pensava ‘gente, mas cidade grande é sempre violente, que bobagem’. Fui ridícula, em NY é completamente diferente. Completamente, eu não sinto nenhum medo, nunca. Não tô dizendo que a cidade é perfeita, nem tenho muita informação para dividir nesse tópico. Tô dizendo só mesmo da sensação.

Eu, que sempre fui bem valente e não tinha medo de nada, fui assaltada as 14h, numa rua movimentada, em SP. Um mocinho de moto me colocou uma arma na barriga e ficava me chamando de ‘vagabunda’ até eu terminar de entregar as minhas coisas. Depois disso fiquei bem medrosa e paranóica, não atendo o telefone na rua (o cúmulo!) e j-a-m-a-i-s ando com a minha câmera a mostra no meio da rua.

Aqui em NY eu ando com a câmera pendurada no pescoço, sem-nenhum-medo. Eu já voltei do Brooklyn a noite, já fui pro Harlem sozinha (e tb voltei a noite) e nunca vi nada estranho, ninguém olhando pra minha bolsa/câmera/iphone/sei lá o que com cara de assalto. Todo mundo abre o Ipad no metrô e no ônibus (aliás, o ônibus aqui é de chorar de limpo, vazio, no horário e organizado!).

Isso pra nem entrar no mérito do jogo de basquete que fui ontem: estádio lotado, imenso e tudo super organizado, todo mundo indo e vindo sem tumulto. Nenhuma briga, nenhum medo, tranquilamente compramos comida, tranquilamente fomos embora de metrô. Sério, é surreal como essa cidade abarrotada de gente funciona.

Ah! E as ciclovias? NA CIDADE INTEIRA?!?!?!?! Todo mundo anda de bicicleta, é lindo. Não vi uma moto enlouquecida fazendo aqueles horrores que fazem em SP, eu disse nenhuma. Os entregadores aqui andam de bicicleta. <3

Para concluir, realmente SP é um caos, não que as outras cidades brasileiras sejam um primor de organização, mas SP é o ápice das que eu conheço e vivi. Por outro lado, olhando de longe, consegui perceber que é lá que eu moro, me senti morando em SP pela primeira vez. Parte daquela loucura sem fim. Consegui entender que preciso estar lá e, posso dizer, que até uma saudadinha eu tô sentindo. Espero, de verdade, que eu encontre muita coisa boa na minha volta pra casa e que eu consiga, de fato, ocupar o pedacinho que me cabe dessa babilônia.

P.S.: E quando eu falo da violência em SP quero deixar claro que, pior que eu que sou assaltada, é o menino que não tem direito a nada, oportunidade nenhuma, passa fome, mora na favela e precisa sobreviver ali. Se a gente precisa ser uma cidade menos violenta é porque a gente precisa ser uma sociedade mais justa, sem sombra de dúvidas.

0 comentário em “Venha Até São Paulo Ver O Que é Bom Pra Tosse”

  1. Adorei o post!
    Essa sensação de liberdade que a gente sente em determinados lugares é impagável e acaba determinando muito da personalidade dos moradores. Lembro quando fui à Chamonix, uma cidadezinha da França. As crianças iam sozinhas esquiar na montanha. Algumas deviam ter 4 anos. JURO! 4 ANOS!! Os pais levavam até o teleférico e marcavam a hora de buscar. Simples assim. Já eu, carioca de nascença que passou a infância ouvindo “cuidado”, “fique atenta”, “tranca a porta do carro”, “não saia de perto de mim”… já era burra velha e estava com medo do teleférico! De esquiar na montanha então… só faltava enfartar!
    Um lugar seguro cria cidadãos livres, corajosos, independentes. Acredito demais nisso! Aquelas crianças tem tudo parar ser mais independentes que eu, inclusive emocionalmente.

    Mas vale lembrar que até pouco tempo atrás NY era extremamente violenta. De verdade. Isso sempre me deixa esperançosa!
    🙂

  2. Oi Thais, tudo bom?
    Acompanho seu blog há um tempinho mas nunca tinha comentado.
    Me identifiquei mto com o post, sou do rio de me mudei pra berlin basicamente pela qualidade de vida. e é diária a felicidade de pegar um metro seguro, que te leva pra qq lugar. dá até mais vontade de explorar a cidade.

    aproveite ny, um bjo.

    ps. vi um dia que vc curte o modices. bem, eu sou designer de lá 🙂 #funfacts

    1. Thais Farage

      Cara, não é? Eu nunca tinha me dado conta da energia que eu gasto sentindo medo. Eu simplesmente ia fazendo no automático até que cheguei aqui. Já tinha viajado pra outros países algumas vezes, mas só agora veio o choque de realidade. Eu nunca ando com o vidro aberto do carro, nunca. Isso não é vida, gente, sério, não tá maneiro.

      E que liiiindo que vc é designer do Modices, a-m-o o blog e acho lindo o design, super parabéns!

  3. Eu me mudei de SP faz 5 anos, nos 2 primeiros anos eu vivia em função de fazer minha vida voltar para SP, aí um belo dia, em viagem a SP, qdo meu pai falou assim “antes de abrir o portão olhe para os dois lados da rua e veja se não tem ng vindo antes de tirar o carro da garagem”, eu pensei, pq msm q eu quero voltar para cá?
    Sinto mtas saudades das pessoas q deixei lá, principalmente dos meus pais, mas da vida de lá hj não tenho mais saudades.
    Ganhei em qualidade de vida, aqui ando tarde da noite – sem tanto medo – (não q eu não tenha, acho q é algo q vou levar para sempre em virtude dos meus mais de 20 anos vivendo em SP).
    Vou a pé para o meu trabalho, em 15 minutos estou em casa.
    Optei por morar no centro e não tenho mais carro, hoje faço tudo a pé.
    Eu realmente gostaria de poder dizer q em qq cidade q vc escolher viver no Brasil vai ter qualidade de vida, mas infelizmente não é assim, principalmente para quem não tem dinheiro, pq o governo não usa nossos impostos para aquilo q deveria.
    E o pior, mtos me chamam de pessimista, sinceramente não vejo expectativa de melhora.
    Bjs

  4. eliza lombardi

    Só uma coisa, realmente tem poucos programas culturais de graça, e qdo tem alguma coisa legal, dá merda! É mais um pouco de violência, de arrastão, de gente causando, gente que vai na má intenção. Todos os grandes eventos de graça aqui em SP infelizmente são assim. Eu abdiquei desses passeios e aconselho as pessoas a não irem, principalmente as que não são de SP.
    O medo da violência aqui é surreal. Eu tenho medo 24h por dia. Detalhando em pensamento, chego a me sentir louca. Não confio em ng.
    Eu nunca viajei pra fora, mas segundo os relatos, se eu for, eu fico. Nem que for escondida. hahaha…
    Mesmo falando tudo isso, tb não consigo entender o amor por SP. Mas eu sinto tb. <3

    1. Thais Farage

      Esse ano eu só fui na Virada Cultural no show do Racionais, pode parecer uma contradição, mas foi tranquilo. Mas foi de dia e o Mano Brown foi muito inteligente e legal porque deu uma conscientizada na galera antes do final do show, acho que isso ajudou a evitar tumulto, também.

      Acho super importante que existe a virada mas confesso: não consigo ir porque fico com medo!

  5. Sabe uma coisa que me irrita? Ficar todo mundo enaltecendo o Rio. Ok, o Rio é mesmo lindo, a gente é feliz apenas olhando pra paisagem, mas gente, não tem qualidade de vida! Eu moro na zona norte, que não tem praia e além de ter sofrido preconceito a vida inteira por não ser zona sul (sim, os cariocas têm preconceito com os próprios cariocas), todo mês de janeiro e fevereiro eu fico apavorada com alagamentos, fora a violencia que convivemos todos os dias, precariedade do transporte público, falta de segurança, aluguéis caríssimos, restaurantes e supermercados caros…tudo caro!

    Eu amo minha cidade, mas na real, só enche a boca pra falar super bem do Rio quem mora mega bem e não tem que matar 2 leões por dia pra sobreviver e ainda ter que andar numa cidade sem a MENOR estrutura. Pra vc ver, sou um ET porque não tenho carro. Ridículo!

    1. Thais Farage

      O Rio tá passando por um momento muito difícil, né? Espero que seja pro bem e que no fim da tempestade as coisas se acertem. Mas concordo com o preconceito dos cariocas com a Zona Norte, hahah e a coisa dos alagamentos é realmente um drama. Uma vez atravessei as ruas na praia de botafogo com água no joelho.

      E, quando eu morava aí (no Catete <3 ) eu vivia em pânico quando chovia… mas morro de saudade do rio, preciso confessar, haha

  6. Adorei! Concordo muito, apesar de não conhecer São Paulo tão bem.
    A sensação de segurança andando em NY é de chorar de felicidade, né? Em Madri me sentia assim. Voltava pra casa da balada às 4h da manhã, sozinha, andando e ouvindo meu iPod, me sentindo segura. É uma sensação de liberdade impagável.

    1. Thais Farage

      Exatamente, Luanne: sensação de liberdade impagável. Em SP eu tô sempre preocupada, olhando pros lados, paranóica….

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